domingo, 13 de março de 2011

Uisque, cigarros e Simplicidade.


Nos caminhos imundos de um lugar desconhecido qualquer, caminhei, caminhei até encontrar um velho homem que me abrigou em sua singela moradia. Ele era experiente e gostava de enrolar seus próprios cigarros os quais consumia exatos 71 diariamente. Quando lhe perguntei o porquê de fumar sempre setenta e um, nem um a mais nem um a menos, ele me olhou com um olhar cansado, e depois de uma longa tragada, eu podendo ver a fumaça saindo enquanto ele balbuciava quase incompreensivelmente algumas palavras. Apenas captei “não sei o porquê, só sei que o faço”.

Ele morava sozinho, porém tinha a companhia de seus barris de Uísque. Ele fabricava uma bebida forte e amarga que eu tive a infelicidade de provar. Ele mesmo a chamava de Uísque do Demônio. Foi quando mais uma vez eu e meu enorme poço de curiosidade viemos à tona no questionamento do nome que outrora ele escolhera. Mais uma vez as palavras se expandiram no ar, com aquela voz rouca e cansada “não sei o porquê, só sei que o faço”.

Tratava-me com uma enorme simpatia, aquele homem, que apesar da idade, vivia, e eu podia ver os braços compridos a manusear os barris pesados, as mãos hábeis a preparar o fumo e suas pálpebras fechando ao encostar o fósforo no cigarro já preparado.

Quando certo dia, despedi-me daquele amoroso e solitário ser humano, verdadeiramente ser HUMANO, veio ele até mim e disse que eu poderia ficar mais alguns dias se assim quisesse, pois falava que seu filho falecera a alguns anos e sentia uma enorme dor no peito, querendo ele suprir tal ausência. Certa coisa mexeu comigo, e assim pude conhecê-lo melhor, pois não poderia recusar tal convite.

Ao fim de tudo, ou talvez não, perguntei-o porquê ele queria alguém do seu lado. Surpreendi-me, pois esperava algo previsível daquele homem, e ele veio até mim e respondeu-me com um sincero beijo na testa. E as suas palavras acompanhadas com lágrimas foram: “não sei o porquê, e isso é o que me mantém vivo”.


Felipe Fugit

2 comentários:

Lily Quel disse...

Bonita história...

gutor disse...

Muito massa, véi...
foi esse que vc disse que tava ruim?
vc é doido?
legal mesmo!
abraços